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Elton Moraes

Escritor Comunicólogo E viciado em café

domingo, 11 de maio de 2014

Capítulo 1 da 2ª Edição de O Guardião Imperial

Olá, pessoal.
Volto aqui, como prometi no post anterior, trazendo o capítulo um do livro de ficção fantástica O Guardião Imperial, primeiro volume da série Crônicas de Onyx. Bem, espero que curtam, e comentem!


Um
O Mensageiro

500 anos depois

Endrich Ragrson estava a meio dia do portão de entrada do Povoado Imperial Crystan – uma grande vila de camponeses em volta do grandioso castelo do Império de Diamante. O Mensageiro Imperial estava voltando do Reino de Ágata – um dos vários reinos ao norte daquele domínio.
         Caminhava tranquilamente, enquanto seu cabelo loiro-acastanhado esvoaçava ao vento brando. Era início de outono, o sol ainda demorava um pouco a se pôr. Seus olhos verde-acinzentados ainda brilhavam a luz da grande Estrela de Fogo. Endrich era um rapaz simples, sem muita coisa na vida aos dezessete anos já havia perdido a mãe e o pai.
            Sua mãe havia morrido quando ele nasceu, por isso, não sabia muito a seu respeito. E seu pai, Ondrich, havia sido assassinado há quatro anos, quando era um Mensageiro Imperial. Estava voltando para o castelo, assim como Endrich agora, mas no meio do caminho fora abordado por contrabandistas que queriam de qualquer forma levar a bolsa que carregava nas costas. Nesta havia um grande pedaço de aço-escarlate – material leve e valioso usado na fabricação de armas e escudos, principalmente nas lâminas de flechas. Porém, Ondrich lutou para não entregá-la, e, por fim, desnecessariamente foi esfaqueado até a morte. Levaram a bolsa contendo o metal. Não se sabe o que aconteceu com a encomenda.
            Nos últimos quatro anos, Endrich se dedicou muito às práticas do arco e flecha. Quando começou, tinha a ideia de fazer aquilo não porque gostava, mas sim para tentar esquecer a tragédia que acontecera a seu pai. Algo que se acomodara com o tempo – mesmo assim alguns sonhos com ele ainda lhe atormentavam as noites. Contudo, o tempo passou e ele se tornou um ótimo aluno e interessado cada vez mais pela atividade. Era um dos melhores arqueiros de todo o império.
            Além dele, havia somente mais um especialista em arco e flecha no Povoado Crystan e em todo o Império de Diamante: Helder Stuarck, seu professor.
            Enquanto seguia tranquilamente, Endrich percebera que a prática havia se tornado sua vida. Toda vez que ele tivesse de fazer alguma viagem para o Imperador Asriel Crystan, fazia questão de levar seu arco e flechas, para o caso de algum ataque. Principalmente pelo o que haviam acontecido a seu pai. A proteção é o melhor ataque – ponderava.
            Suspirou, secando o suor da testa. Apesar de não fazer calor, a caminhada intensa o fazia transpirar. Sinto-me um porco no abate.
            Desde a morte de seu pai, Endrich fora morar com o senhor e senhora MacAran, pais de Luany, sua melhor amiga ajudando periodicamente a colocar comida na mesa. Ele e Luany haviam sido criados juntos desde muito novos; ficar longe dela por mais pouco que fosse o deixava inquieto. Quando pequenos, iam para as colinas além do castelo, e lá ficavam brincando com outras crianças e comendo muito larên – uma fruta típica do verão. Uma de suas melhores memórias era a deles sentados na colina fitando o tapete verde que se estendia a sua frente, onde flores e árvores cresciam deliberadamente.
            Seu estômago roncou com as lembranças de casa. Percebeu que agora estava mais próximo do portão de entrada. Todavia, surpreendeu-se ao ter que fazer uma pausa forçada.
            Subitamente um homem surgiu a sua frente, pulando de algum esconderijo entre as árvores da Floresta Xamã. O caminho por onde seguia era uma estrada que passava por meio da floresta fechada, sendo um ótimo ponto para os contrabandistas atacarem.
            Endrich se assustou quando o homem apareceu do nada, mas não mostrou nenhum tipo de reação a isso. Deve ser mais um daqueles ladrões descarados – pensou ele, bufando. Endrich não parava de fitar o homem. Provavelmente queria roubar-lhe a bolsa que carregava na lateral direita do corpo.
            –– Tudo bem? – disse Endrich tentando ser amistoso, o que não era fácil ante a possibilidade de ser roubado. Percebeu que uma de suas pernas tremia.
            O homem pareceu hesitar.
            – Opa! Estou sim – respondeu finalmente. Olhando sério para Endrich, o homem falou: – Oh, garoto, agora chega de enrolação e me passa a bolsa, o arco e a aljava que está presa a sua cintura. Agora!
            Endrich sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Ele se lembrou da história de seu pai, mas não hesitou.
            – Passar o quê? – perguntou ele. De repente, ele ouviu um barulho quase imperceptível na mata, devia ter mais alguém com o homem. – Eu não lhe entregarei nada!
            – Ah, mas vai. – O homem deu um passo à frente, indicando que atacaria a qualquer momento. Ele tinha a altura do Mensageiro e cabelos longos e emaranhados, parecendo mais um ninho de ratos.
            – Se eu fosse você – avisou Endrich –, eu não faria isso.
            Subitamente, o homem sacou uma adaga, antes presa no cinto da calça. O cabo de madeira era entalhado com o desenho de uma sereia – o símbolo dos contrabandistas. A arma foi sacada com a mão esquerda. Ótimo, ele é canhoto. Vai me dar uma boa posição – pensou Endrich.
            Rapidamente, o homem o ataca tentando passar a adaga em seu pescoço – e como a arma possuía dois gumes, tornava-se mais fácil disso acontecer. Mas Endrich era rápido, por isso conseguiu desviar de todos os ataques, antes de se mover, rapidamente, para a direita do contrabandista. Estando atrás dele, o Mensageiro puxou seu braço esquerdo para trás, e num movimento rápido, derrubou o homem ao mesmo tempo em que o desarmava. E, jogando todo o seu peso em cima do contrabandista, manteve-o com o rosto no chão, enquanto gritava de dor e pedia por piedade – ou chamava por ajuda.
            Endrich estava certo ao pensar que havia mais alguém na mata, pois, veloz como um gato, um homem surge da Floresta Xamã – tão feio quanto o primeiro: cabelos longos e esgadelhados, maltrapilho e de barba por fazer. Quando esse se aproximou correndo, também empunhando uma adaga, Endrich saltou de cima do bandido que prendia e, com um chute, fez o que estava prestes a lhe atacar ser lançado contra uma árvore, com força suficiente para derrubar um cavalo.
            Seus olhos se arregalaram ao perceber a força que empunhara.
            O primeiro contrabandista tentou se levantar, mas foi impedido a tempo por Endrich, que o empurrou de volta para o chão com o pé em suas costas. Ele não gostava de agir de tal maneira, mas só de imaginar que um homem como aquele fizera uma atrocidade com seu pai no passado, a raiva já subia para sua cabeça. Estava incrivelmente surpreso com si mesmo.
            Endrich se certificou de que o segundo contrabandista ainda estava caído perto da árvore e, abaixando a cabeça perto do rosto do primeiro homem, falou em alto e bom som:
            – Nunca mais, nunca mais, tente me atacar. Está me ouvindo?
            – Sim… – murmurou o homem.
            – Caso contrário, não serei tão bom quanto hoje.
            O contrabandista o olhou esbugalhado. Estava visivelmente apavorado. Não tanto pela ameaça, pois já que é um homem de contrabando, vive sendo ameaçado. Mas sim, imaginava Endrich, pela incrível força que ele demonstrara.
            Endrich retirou o pé de cima do homem, tendo o cuidado para que não contra-atacasse. Deu mais uma olhada no segundo homem, a quem abatera tão rapidamente, e voltou o olhar para o primeiro:
            – Cuide de seu amigo. Ele irá precisar – falou, enquanto ajeitava sua capa verde-escura.
            O homem assentiu em silêncio.
            Endrich endireitou a aljava que vinha presa à cintura, pendendo para o lado esquerdo. Fitou os homens mais uma vez. O criminoso que o atacara primeiramente se arrastava até o segundo. Sabia que precisava fazer alguma coisa para detê-los. Talvez uma flecha em seus peitos resolvesse. Entretanto sabia que isso não seria suficiente, os seus pecados não se apagariam da história. Precisava deixa-los a mercê do próprio destino.
            Com esse pensamento súbito, chacoalhou a cabeça e retomou seu caminho para o castelo imperial.
––––
Antes mesmo do anoitecer, Endrich chegou ao portão de entrada do lado oeste. Ele foi recebido pelas sentinelas que guardavam e cuidavam da movimentação de pessoas no alto da Grande Muralha – uma construção em pedra que cercava todo o Povoado Imperial juntamente do castelo. Endrich fez um rápido cumprimento e entrou assim que os portões foram abertos.
            O povoado estava movimentado para um fim de tarde. Mas isso se devia ao fato de ser a época de colher as melhores frutas e de estar acontecendo o Festival do Outono, onde danças e peças teatrais seguiam um cronograma de apresentações na arena da capital. Por isso o comércio e os bares ficavam lotados até tarde da noite.
            Enquanto seguia pela rua principal de acesso ao castelo, foi cumprimentado por inúmeras pessoas. Era bem conhecido no povoado, afinal, todos conheciam o grande arqueiro Endrich. Mas quando achou que poderia terminar o percurso em paz, sem que mais ninguém lhe dirigisse a palavra, foi surpreendido por sua amiga.
            – Luany? Você me assustou! O que está fazendo a essa hora na rua?
            – Desculpe-me. Fui comprar algumas frutas para mamãe – sorri abertamente, fazendo-o acompanhá-la. – Então como fora a viagem? – indagou. – Muitos problemas?
            Luany tinha cabelos loiro-escuros, tão sedosos que brilhavam divinamente a luz das luas Cahim e Nahim; seus verdes olhos cintilavam ao sol.
            – Foi tranquila. Exceto por alguns contrabandistas que encontrei. Só dois, que me atacaram pouco antes de eu chegar – respondeu Endrich, dando de ombros.
       – Mas você está bem?
            – Estou, estou. Não foi nada, só queriam meu arco, a aljava e minha bolsa. Eles deviam saber que eu possuo algo de valor, de alguma forma.
            – E tem algo tão valioso assim? – inquiriu ela.
            – Deixe de ser curiosa, Luany – riu.
            – Ai – resmungou a garota. – Está bem. Se estiver tudo bem, ótimo.
            Endrich gostava da companhia de Luany, fazia-lhe bem. Mas tinha que seguir seu caminho até o castelo imperial. Ainda devia entregar o comunicado que carregava antes de a lua Cahim atingir seu esplendor esverdeado.
            – Bem, tenho que ir – disse Endrich, por hora. – Meu trabalho ainda não findou.
         – Ah… Tudo bem. Então até logo! – respondeu Luany, afastando-se, um meio sorriso moldando seus lábios.
            – Até logo.
         Despedindo-se, Endrich seguiu por entre o comércio movimentado. Todavia, antes de prosseguir até ao castelo, resolveu passar na tenda do Sr. Krísllan, onde comprou um larên, sua favorita.
       – Muitas cartas para entregar? – perguntou Natan Krísllan, filho do dono da tenda, entregando-lhe a fruta.
    – Ah, só o de sempre. – Endrich entregou uma moeda de prata a Natan. E, fazendo um cumprimento rápido de despedida, Endrich pegou seu larên – avermelhado, com sementes grandes e brancas – e saiu.
            Depois de uma breve caminhada, chega à ponte que atravessa o rio Coronal – uma corrente de água que seguia desde o norte e desaguava no mar, ao sul. Atravessando-a, chega à entrada do castelo. O palácio era uma imensa construção de pedra sobre um terreno plano, protegido principalmente pela muralha as suas costas. Alguns detalhes da construção eram cravejados por diamantes, dando-lhe um ar de beleza rústica.
            Quando o imenso portal se abriu, revelou-se um rapaz, que não devia ser mais velho que Endrich. Nestor, um dos filhos do Sr. Krísllan o aguardava. Ele havia se tornado secretário do imperador Crystan com ajuda de Endrich, que o convencera a aceitá-lo. Nestor não era muito alto, e seus cabelos negros e escorridos lhe davam um ar jovial.
            O secretário recepcionou Endrich, apertando-lhe a mão e dando tapinhas em suas costas. Perguntou-lhe como fora a viagem de ida e volta do Reino de Ágata, enquanto o encaminhava até a Sala do Imperador, onde Asriel Crystan passava a maior parte do tempo lendo e assinando acordos – um trabalho que o esgotava mais que caçar na Floresta Xamã, como costumava fazer vez ou outra.
            – Ah, foi… interessante – respondeu Endrich a Nestor, lembrando-se dos pensamentos que o acometeram após enfrentar os bandidos. Contou rapidamente como fora a volta, sua luta.
            Passando por um imenso corredor, ele e o secretário saíram em uma área aberta, o Pátio Interno, iluminada pela lua e por tochas que lançavam uma luz bruxuleante. Seguindo mais a frente, eles entraram em outro corredor do castelo, e, subindo uma escadaria, chegaram a Sala do Imperador, no terceiro andar da torre nordeste. A sala era bem organizada e possuía um cheiro agradável de flores e madeira – culpa de sua filha. A mesa principal ficava nos fundos da sala, com uma enorme janela atrás por onde entraria luz solar se fosse mais cedo. No canto direito, em relação à mesa, havia uma estante de madeira lustrosa entalhada com motivos religiosos, onde se podia identificar um anjo e o que seria raios de luz surgindo de trás da entidade.
            – Endrich! Fique à vontade – convidou Crystan. Ele estava sentado em um pequeno trono com estofado avermelhado, de madeira lustrosa com traços e desenhos em fios de ouro. – Nestor, obrigado. Por favor, deixe-nos a sós.
            – Com licença, majestade. – Fazendo uma mesura, dirigiu-se para a porta e a fechou ao sair.
            – Sente-se, Endrich. – O Imperador indicou uma cadeira também estofada em vermelho.
            O Mensageiro deixou-se cair lentamente no estofado. Suspirou silenciosamente ao poder dar um descanso às pernas.
            – Conseguis-te falar com o Rei Jacob? – indagou Crystan.
            – Sim, senhor. Ele lhe mandou felicidades – respondeu Endrich.
            – Obrigado. Mas então, o que ele resolveu?
            – O Rei leu e releu a carta, e aceitou o pedido.
            – Oh, que bom! – o Imperador parecia contente e ao mesmo tempo misterioso com a notícia. – E quando ele virá?
            – Ele falou que ao amanhecer de amanhã, sairá de Ágata para cá. Ah, disse também que, se for necessário, ele e seus guardas passarão a noite aqui.
            Asriel fez uma careta engraçada, mas Endrich segurou a vontade de rir.
            – Tudo bem. Temos quartos sobrando – comentou o Imperador, recostando-se em seu trono.
            – Senhor, desculpe-me a intromissão, mas essa visita me parecerá muito importante, não? – indagou Endrich.
            Asriel se ajeitou em sua cadeira.
            – Não é bonito fazer esse tipo de pergunta – disse ele, deixando o Mensageiro um pouco encabulado. – Mas irei lhe dizer do que se trata.
            O imperador Asriel Crystan informou Endrich de que o Rei estaria vindo para tratar de negócios e política. O trato era Jacob dar uma grande quantidade de aço-escarlate e aço-minério[1], em troca de um pequeno pacote de diamantes e alguns animais da cavalaria especial.
            – Bem, é isso – disse Asriel, ao terminar de contar a Endrich. Este, entretanto, achava que tinha algo mais nesse encontro. Resolveu não indagar sobre. – Hoje não irei mais precisar de seus serviços. Pode se retirar – sorriu. – Obrigado.
            Endrich fez uma leve mesura e saiu da sala silenciosamente. Voltaria para casa onde tentaria descansar. Mas no fim, sua noite não foi calma como gostaria que fosse.





[1] Metal pouco precioso, mas de grande durabilidade e resistência, como o aço-escarlate. É encontrado principalmente nas zonas oeste e central. Com sua coloração escura, é principalmente usado para modelar armas e panelas.

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Elton Moraes
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